Postais de campo: construção da confiança no Equador

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A cientista do CIFOR Elena Mejía, direita, acompanha habitantes quíchuas que estão transportando madeira ao longo do rio Arajuno, no Equador. Tomas Munita/ CIFOR

A cientista do CIFOR Elena Mejía, direita, acompanha habitantes quíchuas que estão transportando madeira ao longo do rio Arajuno, no Equador. Tomas Munita/ CIFOR

Motoniveladoras engolem a lama e bloqueiam a estrada grudenta e esburacada quando Elena Mejía e Ayme Muzo se dirigem à comunidade rural indígena na província de Napo no Equador. As jovens pesquisadoras equatorianas têm que esperar uma hora até que os trabalhadores da estrada limpem uma faixa estreita para que seu veículo 4X4 se esgueire.

Atrasos como este são parte da vida diária da pesquisa de campo em que elas estão realizado como parte da pesquisa Pro-Formal do CIFOR nos mercados domésticos de madeira, entrevistando e pesquisando os membros da comunidade sobre seu uso dos recursos florestais.

E quando chegam à aldeia, a comunidade talvez não esteja preparada para elas, pois nem sempre há sinal de celular, o que exige várias, visitas, através de estradas cruas para que a comunidade organize reuniões.

Mas essas dores de cabeça práticas não são a parte mais difícil deste tipo de pesquisa de campo, diz Elena.

“O maior desafio do trabalho que estamos fazendo é que não temos nada a oferecer às pessoas destas comunidades além de informação”, segundo ela.

“É um pouco intangível e este é o problema — uma ONG pode vir à comunidade oferecendo ajuda com a agricultura, oferecendo mudas. Em vez disso tudo, que eu posso dizer é: ‘Eu tenho informações que podem ser úteis para você’. E isto pode ser complicado para explicar.”

Este artigo é parte de um pacote de multimídia sobre a floresta amazônica. Veja mais em blog.cifor.org/amazonia

Mas esta explicação é essencial, se as pessoas estão dando seu tempo para participar do estudo — especialmente considerando o tema das entrevistas.

“O tema que estávamos discutindo era a extração de madeira, um tema muito sensível para as pessoas”, diz Ayme. “Porque você está falando de coisas que são legais e ilegais.”

“Ninguém quer dizer muito, porque eles estão com medo de que você seja do governo, pronta para distribuir multas. E ganhar a sua confiança, explicando por que você veio, demora.”

Criar a confiança com as famílias na área de estudo é uma parte essencial de fazer pesquisa em comunidades, dizem os cientistas.

A cientista do CIFOR Elena Mejía fala com as mulheres quíchuas antes de sua reunião com os habitantes no seu retorno para informar seus resultados. Província de Napo, Equador. Tomas Munita/CIFOR

A cientista do CIFOR Elena Mejía fala com as mulheres quíchuas antes de sua reunião com os habitantes no seu retorno para informar seus resultados. Província de Napo, Equador. Tomas Munita/CIFOR

“Nossa responsabilidade é criar um grau de confiança entre a comunidade para que eles possam confiar em que o trabalho que estamos fazendo não é um desperdício de tempo e também que vamos retornar à comunidade e compartilhar essa informação”, explica Elena.

“É muito importante criar a confiança. Pode levar anos.”

Elena e Ayme passaram vários meses vivendo com diferentes líderes comunitários em suas casas durante a pesquisa, compartilhando refeições e o cotidiano com as famílias.

“Você precisa viver com as comunidades — e precisa ouvi-los”, diz Elena.

“Às vezes, muito do que eles dizem pode parecer irrelevante. Mas isso faz parte do seu dia a dia e nos mostra como eles constroem suas estratégias de sobrevivência nestas comunidades remotas.”

Ayme concorda.

“É muito importante mostrar interesse nas pessoas que estão conversando com você, pois às vezes falam muito. Mas como elas estão dedicando duas horas de seu dia à nossa pesquisa, também precisamos reagir e mostrar-lhes respeito — nesse momento não estão trabalhando ou gerando renda”, diz ela.

Aparentemente, as conversas fora do tema também podem trazer informações importantes — se os pesquisadores têm tempo suficiente para investir em forjar relações com seus anfitriões.

“Além da pesquisa formal, quando você está vivendo com alguém, e conversa com eles em casa, você consegue mais informações. Às vezes, isto é relevante para as atividades das comunidades ou a maneira como algum aspecto da vida da comunidade mudou, o que pode ser útil mais tarde para explicar ou compreender alguns resultados da pesquisa”, explica Ayme.

“Então isso é muito importante, talvez para o próximo projeto, para dar mais tempo para este processo de criar a confiança com as pessoas.”

Para mais informações sobre as questões abordadas neste artigo, contate Elena Mejía pelo email k.mejia@cgiar.org

O projeto Pro-Fomal (Política e opções reguladoras para reconhecer e melhor integrar o setor de madeira doméstico em países tropicais)  é financiado pela União Europeia e integra o Programa de Pesquisa sobre Florestas, Árvores e Agroflorestas da CGIAR.

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